sexta-feira, 16 de maio de 2014

como tudo deve ser


Para ler ao som de Delicate - Damien Rice

Minha amiga me perguntou:
"Rafa, o que a gente faz com o amor?"
"Como assim?" eu questionei.
"Quando tudo acaba, o que a gente faz com o amor?"
E me fez pensar.


Olhe em volta e perceba:
A vida é perecível.
E tudo está se desfazendo agora.
Mas calma, não se assuste.
Lembra daquele namorado?
Aquele que te deixou e você achou que fosse morrer?
Então, era perecível.
É que a gente precisa morrer algumas vezes durante a vida pra poder recomeçar.
Mais forte.
Mais maduro.
Mais cabeça.
Talvez um pouco menos coração.
Mas não se condene.
Não dá pra ser perfeito.

Eu olho em volta e às vezes fico com medo.
Minha cachorra da vida inteira está com dezesseis anos.
Anda toda dura, perdeu quase todos os dentes.
Minha avó tão forte, está velha.
Recorre à luz do sol para enxergar a ponta da linha para costurar.
Minha mãe tão jovem, está com rugas.
E com uma puta cara de insatisfação.
Meu avô, que foi também meu pai nesta vida, morreu.
Evaporou-se.
Num dia. Tchau.
Em contrapartida, do outro lado desta mesma vida eu vejo!
Vejo as dores sendo curadas.
A vida dá e toma.
Dá.
Toma.
Rouba.
Leva.
As coisas se desfazem para outras ocuparem seu lugar.
Mesmo sabendo que nada nem ninguém ocupa o lugar de outra coisa em nosso coração.
Coração é território santo.
Território conflituoso e bonito.
Mas o que a gente faz com o amor?
O que a gente vai fazer depois que tudo acabar?
Eu digo que alguns de nós vão procurar feito loucos um novo amor.
Outros vão comer. Muito.
Outros vão chorar. Talvez muito.
Outro vão beber. E se muito, vão passar mal.
É válido. Tudo é válido.
Eu talvez escreva um romance.
Mas onde é que a gente vai enfiar todo esse amor?
Eu não sei se há um lugar certo ou uma atitude que surta mais efeito.
Eu sei que chorar não vai resolver.
Nem tanto comer ou beber demais.
Até porque fazendo essas coisas, perdemos tempo pensando no tempo perdido.
Se eu sou perecível,
Se eu estou me desfazendo neste momento pra que outro eu ou outra coisa ocupe este lugar,
Eu quero sair bem.
Então a gente pega esse amor, e engole.
Amar a gente mesmo, faz um bem danado.
É o tal do amor próprio.
Então se alguém também te deixou, como aconteceu com a minha amiga,
Engula esse amor.
Pegue pra você.
Sem medo, sem pensar.
E se cuide.
Se precisar comer, beber, escrever um romance, chorar,
Tudo bem, faça.
Mas engula esse amor e se levante logo.
Não fique perdendo tempo não.
As coisas são como devem ser.
Nesse momento as pessoas que amamos, estão mais perto do prazo de validade do que quando eu comecei a escrever esse texto...
Estão mais velhas do que quando você começou a ler...
É aqui.
É agora.
O que foi, foi. Ninguém vai e nem pode mudar...
O que vem, depende disso.


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