Por uma fração
de segundo no universo, eu existo. Logo não vão se lembrar de mim, logo o tempo
vai ter voado e outros nomes virão, outras espécies virão, outras doenças
virão. Eu nunca serei o universo, então aprendi que não adianta eu viver agindo
como se o fosse. Eu sou uma célula do tudo, minha função é ser o melhor que
posso ser. Eu sou uma fagulha de luz na imensidão escura das coisas, meu
destino é ser e num determinado momento, deixar de sê-lo. Este foi o ano mais
produtivo da minha vida – o ano em que tomei consciência daquilo que eu
verdadeiramente sou.
A melhor coisa
que fiz em minha vida foi ter entrado em terapia. Não é todo mundo que se
beneficia com um trabalho deste tipo porque em geral, não entendem o que o
processo terapêutico significa ou para que ele serve. Eu dei sorte de cruzar
com uma ótima psicóloga que no meu pior momento me tomou pela mão e me ajudou a
me livrar do meu medo de olhar para mim mesmo como um ser humano. Eu tinha medo
de ser um humano, porque ser humano implica em não ser deus, em não ser
perfeito, em não controlar as coisas e em morrer.
Quando eu
consegui me olhar como um ser humano, eu tive a oportunidade de mudar o meu
destino, porque enquanto eu quisesse ser deus, meu destino era controlar as
coisas e sempre ter medo de entrar em contato com aquilo que é só dos homens.
Eu neguei minha natureza por muito tempo. Eu neguei a minha imagem. Eu neguei o
meu sentimento. Eu neguei a minha incapacidade. Eu neguei o meu medo e me
tranquei atrás de grades de proteção. Me tornei um deus enclausurado, brincando
de controlar o mundo, doutorado em fingimento. Fingi que não tinha medo, mas
aqui entre nós, quem não tem medo não precisa se trancar numa fortaleza,
certo?!
Os frutos que
colhi no meu processo terapêutico são incontáveis, mas os principais foram a
retomada da minha aceitação de ser humano e a aceitação dos meus sentimentos.
Eu não me sentia no direito de ter raiva, de ter amor, de ter medo, de ter
desejo sexual. Eu me escondi em páginas e páginas escritas, me escondi atrás da
fumaça do meu cigarro, me escondi no som das festas, nos copos de vodka, na neblina
da noite. Eu tive medo de me mostrar e não ser aceito, mas agora eu me despi,
estou entregue à vida de novo, desta vez com uma diferença: com a consciência
de que as coisas nem sempre vão correr como eu gostaria. Lógico que isso não
muda o fato de que eu continuo (e continuarei) sofrendo... Mas muda a maneira
como eu experimento o sofrimento da vida. Não preciso mais me desgastar pela
minha condição de mero mortal.
Hoje eu sei que
nossos fantasmas só se dissipam quando os encaramos de frente. Se dissipam
porque não são reais. Fantasmas são fantasias infantis que mantemos em nossa
mente.
Hoje eu sei que
a melhor coisa que podemos fazer é deixar a vida rolar, é deixar o movimento
acontecer.
Hoje eu sei que
sofri pela minha imaturidade, e que quando alguém simplesmente não deseja estar
ao seu lado, a melhor coisa que temos a fazer é deixar que esta pessoa se vá em
paz, deixar que ela saia de nossa corrente sanguínea, que uma hora alguém que
gosta da gente como somos, vai chegar e a vida vai ser mais fácil porque vai
ser natural.
Hoje eu sei que
o nosso único erro é querermos tanto ser amados. O outro tem direito de nos
amar ou não, isso não vai depender dos nossos esforços, não vai depender do que
a gente faz, e sim do que a gente é.
Hoje eu sei que
eu não preciso mais me desgastar, temos pouquíssimo tempo aqui e nossa função
não é sofrer e sim ser. O dever de cada um de nós é apenas ser. Hoje eu sou.
Hoje eu me
permito me desligar de tudo que passou. Quebrei com o que já não é mais. Não
tenho o direito de fazer isso comigo mesmo, não tenho o direito de manter
histórias que se repetem e não surtem efeito algum. Eu joguei aquelas malas
pesadas no chão e segui nu. Eu tirei a máscara, me olhei no espelho e chorei de
felicidade: eu tenho o direito de viver também! Tenho direito de odiar, de ter
medo, de transar, de gozar, de cansar, de chorar, de pedir. Eu tenho direito de
sofrer, e estou aprendendo a sofrer direito, sem precisar me despedaçar ou
fazer um show porque meu coração está doendo.
Quando eu
arrebentei as grades eu tremi na base, tive medo, mas me mantive sobre as
minhas próprias pernas. Eu encontrei meu equilíbrio, eu encontrei o meu limite,
eu me encontrei! Atrás daquela máscara estava a minha face agoniada, e agora eu
sou! Sou um homem que teme ainda, mas tal temor não me para mais. Minha cara
não é mais uma máscara, minha cara é meu próprio rosto.
Por muito tempo
eu quis ser visto por isso eu fazia demais. Hoje eu sei que para sermos vistos,
basta nossa existência. Eu sou! Não preciso fazer, só preciso me soltar,
relaxar, desfazer as tensões que esse sistema repressor nos impele.
Esse blog acaba
aqui. Este é meu último post. Vou parar de pensar um pouco e vou viver a minha
vida. Não vou ficar na janela vendo a banda passar. Eu sou parte da banda. Eu
sou parte da balada. Balada de um solitário. Estamos sozinhos ainda, não levaremos
nada, apenas nossa eterna existência limitada.
Aqui um
ex-deus, ainda com um pouco de medo, mas que não se priva mais de ser. Eu sou
Rafael Pereira, tenho 24 anos, estive doente por sete anos, mas não nasci para
ser só isso. Nova rota traçada: meu destino é ser pleno. No futuro, nos
encontraremos e eu vou ser bem diferente, mas uma coisa eu vou manter: o primeiro
movimento de naturalidade e de vida em mim. Amar e viver como uma criança.
Com amor, muito
amor...
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