sábado, 24 de maio de 2014

essas podem ser as últimas palavras

Para ler ao som de Birdy - Wings

Meu avô mal falava com a gente,
Sempre sério, ríspido, distante.
Quando estava internado,
Menos de uma semana antes de morrer,
Minha avó foi passar a noite com ele no hospital,
E no meio da noite ele acordou
Ela estava acordada.
Ele disse:
“Pra quê passar tanto tempo brigados, né?!”
Foi quase tarde demais.
Meu avô e minha avó mal conversavam,
E quando conversavam, acabavam brigando.
Passaram mais de cinquenta anos vivendo juntos,
E precisou ver a cara da morte chegando
Para ele notar que é uma puta perda de tempo
Ficar brigado com quem a gente ama.
Eu tinha tanto medo,
Mas essa frase botou combustível em mim.
Eu não vou passar minha vida
Perdendo tempo brigando com ninguém.
Se não dá certo estar ali, lado a lado,
Então é melhor ir cada um pro seu lado
Procurar ser feliz do jeito que dá...
Eu não vou passar minha vida
Perdendo tempo com bobagens,
Esperando a morte chegar
E me arrepender por ter sido um grosso,
Não vou esperar perder o afeto de quem eu amo,
Para notar como é bom ser amado.
É uma bobagem sem tamanho ter tudo nas mãos
E ficar com as mãos abertas,
Só para ter certeza que o vento não vai levar.
Se você tem nas mãos,
Agarra com força,
Abraça apertado,
Junta peito com peito
E fala o quanto isso é bom.
Deixa o universo saber,
Deixa a pessoa que você ama,
Saber o quanto ela é importante.
Não espera chegar o fim,
Não espera pra se arrepender no último capítulo,
Porque no fim, a gente pode fazer
Muito pouco.
Temos uma vida inteira pra fazer feliz quem a gente ama.
Não espera um câncer,
Não espera uma veia entupida,
Não espera a velhice chegar,
Não espera que a pessoa precise ir,
Para que você perceba o quanto você quer que ela fique.
Algo que eu sei de cor e salteado,
É quanto dói o peso da culpa.
Faça agora!
Não abra mão de ser,
Para depois se arrepender.
O amanhã é muito incerto.
Meu avô estava aqui em casa,
Sentiu dores no peito,
Foi ao médico,
Ficou internado
E nunca mais voltou aqui,
Nunca mais deitou na cama dele,
Nunca mais usou o banheiro de casa,
Nunca mais sentou-se na cadeira da varanda,
Nunca mais riu com as vídeo-cacetadas
Do Faustão.
A gente não sabe como vai ser o amanhã,
Por favor, acredite!
A última coisa que eu ouvi dele foi:
“O Rafael pra mim, é como se não fosse nada!”
Infelizmente nem ele e nem eu sabíamos
Que seriam as últimas palavras,
Porque se soubéssemos,
Teríamos consertado... 

Nenhum comentário:

Postar um comentário