segunda-feira, 26 de maio de 2014

sobre corações e pedras de gelo

Para ler ao som de City and Colour - Two Coins

Eu gostaria de ter escrito uma carta
Para mim mesmo de uma outra vida.
Uma carta que dissesse:
“Me escute com atenção,
Quando aquele cara de sorriso fantástico,
Aquele cara de pele cheirosa,
De olhar calmo e de palavras bonitas,
Quando aquele cara que te elogia
E diz que te ama muito,
Quando aquele cara que te encanta
Só pela voz, e pelo jeito bobo,
Quando aquele cara disser
Que você é a melhor coisa que aconteceu
Nos últimos tempos em sua vida,
E no outro dia resolver te deixar,
Assim, do nada,
Não feche seu coração!
Não feche as portas da sua alma,
Porque o que vai acontecer,
Vai ser um inverno aí dentro!”
Eu gostaria de ter escrito essa carta
E assinado no fim com nome de:
“Por favor, me acredite!”
E gostaria de ter escrito no verso dessa carta:
“Se por ventura, você se fechar,
Só porque um homem-menino te machucou,
Os homens-homens vão bater à porta,
E você por medo não abrirá!
E tudo congelará, e você congelará junto
Trancado dentro de si mesmo.
Você congelará no tempo.
E as pessoas baterão,
E as oportunidades baterão,
E você vai tremer de medo quando acontecer,
E não abrirá mais a porta,
Porque um dia alguém entrou ali,
Iluminou e aqueceu,
E sem mais nem menos
Te abandonou.”
E eu gostaria de ter escrito
Na segunda página dessa carta:
“Quando eu tinha um ou dois aninhos,
Meu pai me abandonou,
Só porque terminou o casamento com minha mãe.
E por vinte e um anos,
Eu esperei que ele voltasse,
Porque tinha curiosidade de saber como é sua voz,
Como é seu cheiro,
Ou mesmo que tipo de leonino ele é.
Dói sentir-se abandonado,
Mas no dia em que eu tive a oportunidade
De realmente conhecê-lo,
E disse:
‘Ah, as pessoas tomam decisões na vida,
Ele decidiu se ausentar,
Mesmo sabendo suas responsabilidades,
Ele preferiu abrir mão de ser seu pai.
Agora tome você a sua decisão!
Vai decidir bater à porta de quem não te quis,
Ou vai erguer essa cabeça e tratar de enfeitar a sua porta
Para que desesperadamente recorram a ela?’
E eu notei, que é normal ser abandonado,
Infelizmente é normal...
Mas o importante,
O mais importante na vida,
É como você lida com as coisas,
Como as transforma para guardar
Dentro das prateleiras que tem no seu coração.”
E se eu tivesse escrito essa carta,
Talvez eu teria deixado a porta aberta,
Ou ao menos teria atendido à porta
Quando alguém legal bateu.
Então, eu me aqueço, agora,
Com dificuldade para derreter todo o gelo,
Com dificuldade para abrir a porta,
Com dificuldade em ver claridade,
Porque uma coisa que aprendi
É que a luz machuca os olhos de quem
Passou muito tempo na escuridão.
Então vou com calma,
Abrindo as cortinas, as janelas,
Para que a história continue.
A história precisa continuar.
Eu mereço isso.

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