Para ler ao som de Mais Além - Rosa de Saron
Dizem por aí, que dos destinos que supostamente
temos, o melhor deles é ir para o paraíso. Esta é a justificativa para a
escolha do título. O resto deixo que você entenda por si mesmo.
Eu já vivi grandes amores, já vivi dias de muita
felicidade, já vivi momentos de perda e de muita dor, já tive crises horríveis
de ansiedade, já me frustrei muito, já me entreguei demais. Minha dúvida agora
é essa: o que existe além disso? Quanta felicidade existe além da maior
felicidade que já senti na vida? Quanta tristeza existe além da maior tristeza
que já senti na vida? Quantas coisas melhores existem além do paraíso que nos
contaram?
Eu descobri que existem muitas coisas que vão além da
experimentação que eu fiz da vida. Eu não sei de tudo, não senti tudo, não fiz
tudo, não conheci tudo. Eu quase não viajei, quase não me permiti, quase não
testei meus limites. Eu quero mais. Eu não me satisfaço mais com o brilho dos
olhos de uma criança, eu quero conhecer a força e a paz que existem atrás desse
olhar. Quero mais do que ver, quero enxergar.
Não me satisfaço mais com os lábios quentes dos
rapazes, quero conhecer a obscenidade que existe na língua e na saliva. Quero
mais do que selinho, quero engolir e ser engolido.
Não me satisfaço mais com as curvas sinuosas do
corpo humano, quero conhecer a história que permeia essas linhas de vida
materializadas num corpo. Quero mais do que anatomia, quero existência.
Não me satisfaço mais com a abstinência do meu
cigarro, quero conhecer o buraco vazio que ele preenche em mim. Quero mais do
que fumaça, quero autoconhecimento.
Não me satisfaço mais com comida sem sal, quero o
sabor da entrega de quem cozinhou. Não me satisfaço mais com culinária, quero
intensidade.
Não me satisfaço mais com duas ou três lágrimas,
quero a dor intensa e real de estar vivo e sofrer integramente as
consequências. Não me satisfaço mais com a cara de coitado, quero a verdade.
Não me satisfaço mais com uma foda num carro num
sábado à noite, quero conhecer o prazer de sê-lo todo e tê-lo todo. Não me
satisfaço mais com o orgasmo, quero magnetismo.
Não me satisfaço mais com a vida que eu levava. Não
me encaixo mais nas conversas toscas que eu costumava engolir e relevar. Não me
encaixo mais na história do cara cheio de talentos que desperdiça toda uma vida
por medo de dar a cara a tapa. Eu não me encaixo mais na vida que eu tinha, não
me satisfaço mais com um paraíso sobre as nuvens. Eu preciso de mais. Preciso
visitar casas novas, conhecer novas pessoas, ouvir novas músicas, conhecer
outras vertentes do prazer e da dor. Eu preciso aprender a sofrer sem perder a dignidade,
sem perder o pé do chão. Preciso aprender a me entregar sem me perder de mim,
sem esquecer de onde foi que eu vim e quem eu sou. Eu preciso aprender a não
olhar para o outro como um diagnóstico e sim como uma história de consecutivas
tentativas de dar certo na vida. Eu preciso começar a aceitar a frustração e
entender que eu não sou rei de nada. Preciso começar a abrir mão das coisas que
passaram para eu poder seguir em frente.
Eu preciso de mais presente e menos passado e
futuro. Eu preciso e preciso agora. Preciso me jogar de um penhasco dentro de
um rio e aprender a nadar. Eu não vou ter uma mãe para nadar por mim a vida
toda. Eu preciso aprender a ser sem depender. Eu preciso conhecer o mundo que
vai além dos lugares que eu visitei. Preciso ultrapassar minhas próprias
fronteiras. Preciso conhecer palavras que eu não conheço, sentir cheiros que
ainda não senti. Eu preciso dar um beijo de novela embaixo da chuva. Eu não
vivi nada e já se foram 24 anos.
Eu preciso quebrar o cercado, arrebentar a redoma.
Se eu for prudente, poderei ser livre, não precisarei ter medo. Se eu for
prudente, não morrerei à toa. Hoje, eu prefiro me arriscar do que nunca me
encontrar. Amanhã eu não sei, talvez eu vá além disso.

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