sexta-feira, 6 de novembro de 2015

além do paraíso

Para ler ao som de Mais Além - Rosa de Saron


Dizem por aí, que dos destinos que supostamente temos, o melhor deles é ir para o paraíso. Esta é a justificativa para a escolha do título. O resto deixo que você entenda por si mesmo.
Eu já vivi grandes amores, já vivi dias de muita felicidade, já vivi momentos de perda e de muita dor, já tive crises horríveis de ansiedade, já me frustrei muito, já me entreguei demais. Minha dúvida agora é essa: o que existe além disso? Quanta felicidade existe além da maior felicidade que já senti na vida? Quanta tristeza existe além da maior tristeza que já senti na vida? Quantas coisas melhores existem além do paraíso que nos contaram?
Eu descobri que existem muitas coisas que vão além da experimentação que eu fiz da vida. Eu não sei de tudo, não senti tudo, não fiz tudo, não conheci tudo. Eu quase não viajei, quase não me permiti, quase não testei meus limites. Eu quero mais. Eu não me satisfaço mais com o brilho dos olhos de uma criança, eu quero conhecer a força e a paz que existem atrás desse olhar. Quero mais do que ver, quero enxergar.
Não me satisfaço mais com os lábios quentes dos rapazes, quero conhecer a obscenidade que existe na língua e na saliva. Quero mais do que selinho, quero engolir e ser engolido.
Não me satisfaço mais com as curvas sinuosas do corpo humano, quero conhecer a história que permeia essas linhas de vida materializadas num corpo. Quero mais do que anatomia, quero existência.
Não me satisfaço mais com a abstinência do meu cigarro, quero conhecer o buraco vazio que ele preenche em mim. Quero mais do que fumaça, quero autoconhecimento.
Não me satisfaço mais com comida sem sal, quero o sabor da entrega de quem cozinhou. Não me satisfaço mais com culinária, quero intensidade.
Não me satisfaço mais com duas ou três lágrimas, quero a dor intensa e real de estar vivo e sofrer integramente as consequências. Não me satisfaço mais com a cara de coitado, quero a verdade.
Não me satisfaço mais com uma foda num carro num sábado à noite, quero conhecer o prazer de sê-lo todo e tê-lo todo. Não me satisfaço mais com o orgasmo, quero magnetismo.
Não me satisfaço mais com a vida que eu levava. Não me encaixo mais nas conversas toscas que eu costumava engolir e relevar. Não me encaixo mais na história do cara cheio de talentos que desperdiça toda uma vida por medo de dar a cara a tapa. Eu não me encaixo mais na vida que eu tinha, não me satisfaço mais com um paraíso sobre as nuvens. Eu preciso de mais. Preciso visitar casas novas, conhecer novas pessoas, ouvir novas músicas, conhecer outras vertentes do prazer e da dor. Eu preciso aprender a sofrer sem perder a dignidade, sem perder o pé do chão. Preciso aprender a me entregar sem me perder de mim, sem esquecer de onde foi que eu vim e quem eu sou. Eu preciso aprender a não olhar para o outro como um diagnóstico e sim como uma história de consecutivas tentativas de dar certo na vida. Eu preciso começar a aceitar a frustração e entender que eu não sou rei de nada. Preciso começar a abrir mão das coisas que passaram para eu poder seguir em frente.
Eu preciso de mais presente e menos passado e futuro. Eu preciso e preciso agora. Preciso me jogar de um penhasco dentro de um rio e aprender a nadar. Eu não vou ter uma mãe para nadar por mim a vida toda. Eu preciso aprender a ser sem depender. Eu preciso conhecer o mundo que vai além dos lugares que eu visitei. Preciso ultrapassar minhas próprias fronteiras. Preciso conhecer palavras que eu não conheço, sentir cheiros que ainda não senti. Eu preciso dar um beijo de novela embaixo da chuva. Eu não vivi nada e já se foram 24 anos.
Eu preciso quebrar o cercado, arrebentar a redoma. Se eu for prudente, poderei ser livre, não precisarei ter medo. Se eu for prudente, não morrerei à toa. Hoje, eu prefiro me arriscar do que nunca me encontrar. Amanhã eu não sei, talvez eu vá além disso. 

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