segunda-feira, 2 de novembro de 2015

tímido e selvagem

Para ler ao som de Low Roar - Dreamer

Todo mundo que morre por amor, vira cupido. Existem regras claras no mundo dos cupidos. Eles têm territórios, um não pode flechar um humano dentro do território do outro porque o casal cometerá um crime passional. Quanto maior a distância que a flecha for lançada, mais o amor do casal durará. Se um humano for flechado e resolver lutar contra o amor, o cupido pode ser transformado em pó, por isso ele continua flechando constantemente esse humano para que ele ceda. Já sentiu aquela vontade incontrolável de ir atrás de alguém e tentou se manter afastado? Já sentiu aquelas pontadas doloridas no peito? Então, era um cupido tentando não virar pó...

Num dia desses eu estava caminhando por aí, ligeiro e apreensivo como uma lebre no campo com minhas grandes orelhas para trás. E você cruzou meu caminho como quem não quer nada, como quem não deseja e eu fiquei de orelhas em pé. Farejei o ar que vinha de você, aproximei-me timidamente. Você deu um passo para trás. Eu ousei me aproximar novamente e você pulou na minha boca, feito água fresca pra quem tem sede. Você escorreu pelo meu rosto, tocou o solo, evaporou e se choveu todo em mim.
Eu não sei como foi, mas gostaria de saber. Gostaria de saber qual cupido nos acertou. Gostaria de saber onde foi que ele nos acertou. Gostaria de saber precisamente a distancia que ele nos acertou, para calcular quanto tempo tenho ao seu lado, embora algo em mim teime em dizer que não adianta tentar burlar essas regras imutáveis do mundo místico. Saber quanto tempo temos juntos não vai mudar o rumo das coisas. Não vai mudar o fato de que eu estou no chão, com uma flecha cravada nas costas.
Algumas pessoas dizem que os cupidos seguem um plano muito maior do que tudo que conhecemos. Que eles nunca flecham ninguém ao acaso, que existe um motivo para tudo que acontece em nossas vidas. Eu estava caminhando por um campo quando você cruzou meu caminho. Tímido e selvagem. Quando nosso fogo acendeu, eu deixei de sentir em mim para sentir em você. Eu me ocupei mais do seu prazer do que do meu. Sei que não é à toa que folhas caem das árvores. Não é à toa que eu olhei da janela do quarto o dia escurecer timidamente por trás das nuvens pesadas. Haviam palavras perdidas nalgum lugar que não foram ditas, gestos que não foram mostrados. E a gente só deixa tais coisas escaparem porque sabe que ainda temos tempo. A cada semana eu refaço as contas da distancia que o cupido nos acertou. 

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