Para ler ao som de Low Roar - Dreamer
Todo mundo que morre por amor, vira cupido. Existem
regras claras no mundo dos cupidos. Eles têm territórios, um não pode flechar
um humano dentro do território do outro porque o casal cometerá um crime
passional. Quanto maior a distância que a flecha for lançada, mais o amor do
casal durará. Se um humano for flechado e resolver lutar contra o amor, o
cupido pode ser transformado em pó, por isso ele continua flechando
constantemente esse humano para que ele ceda. Já sentiu aquela vontade incontrolável
de ir atrás de alguém e tentou se manter afastado? Já sentiu aquelas pontadas
doloridas no peito? Então, era um cupido tentando não virar pó...
Num dia desses eu estava caminhando por aí, ligeiro
e apreensivo como uma lebre no campo com minhas grandes orelhas para trás. E
você cruzou meu caminho como quem não quer nada, como quem não deseja e eu
fiquei de orelhas em pé. Farejei o ar que vinha de você, aproximei-me
timidamente. Você deu um passo para trás. Eu ousei me aproximar novamente e
você pulou na minha boca, feito água fresca pra quem tem sede. Você escorreu
pelo meu rosto, tocou o solo, evaporou e se choveu todo em mim.
Eu não sei como foi, mas gostaria de saber. Gostaria
de saber qual cupido nos acertou. Gostaria de saber onde foi que ele nos
acertou. Gostaria de saber precisamente a distancia que ele nos acertou, para
calcular quanto tempo tenho ao seu lado, embora algo em mim teime em dizer que
não adianta tentar burlar essas regras imutáveis do mundo místico. Saber quanto
tempo temos juntos não vai mudar o rumo das coisas. Não vai mudar o fato de que
eu estou no chão, com uma flecha cravada nas costas.
Algumas pessoas dizem que os cupidos seguem um plano
muito maior do que tudo que conhecemos. Que eles nunca flecham ninguém ao
acaso, que existe um motivo para tudo que acontece em nossas vidas. Eu estava
caminhando por um campo quando você cruzou meu caminho. Tímido e selvagem.
Quando nosso fogo acendeu, eu deixei de sentir em mim para sentir em você. Eu
me ocupei mais do seu prazer do que do meu. Sei que não é à toa que folhas caem
das árvores. Não é à toa que eu olhei da janela do quarto o dia escurecer
timidamente por trás das nuvens pesadas. Haviam palavras perdidas nalgum lugar
que não foram ditas, gestos que não foram mostrados. E a gente só deixa tais
coisas escaparem porque sabe que ainda temos tempo. A cada semana eu refaço as
contas da distancia que o cupido nos acertou.

Nenhum comentário:
Postar um comentário