sábado, 18 de abril de 2015

planeta dos macacos

Para ler ao som de Endless Fight - Gustavo Santaolalla

Quem somos, de onde viemos e para onde vamos são questões que permeiam a humanidade há muito tempo. A grande beleza e também a grande tragédia da vida humana, é imitar as pequenas e as grandes coisas. Do movimento da energia até o movimento dos universos paralelos que se criam infinitamente.
O conflito nasce nas divisões celulares e na multiplicação da matéria. Ali onde a mãe se divide do filho. Os dois são um só até haver um corte. Do corte, nasce a dor narcísica de ser alguma coisa faltante, a eterna falta de algo que foi perdido e que, sinto relembrar, jamais será encontrado.
Do corte nasce o buraco vazio, a mais profunda metáfora da pequenez humana. Pequenez que constrói naves espaciais para conhecer outros planetas, mas que não dá conta de sua própria natureza. Natureza de macaco. Cada macaco no seu galho e um tombo no chão quando o mesmo se parte. Bater contra o chão é voltar a si. Ter a cabeça nas nuvens é divagar.
E é ali que estão todas as coisas. Tudo converge para o mesmo fim: o buraco vazio. As fantasias, os desejos, os movimentos, tudo na fiel e infindável esperança de preencher esta falta humana. Humano relacionado ao latim Homo e Humus, aquilo que é referente à terra. Sementes da terra, que anseiam por criarem raízes. Criamos raízes no chão com nossas casas. Criamos raízes nos céus com nossos arranha-céus, com nossas naves, com nossos satélites. Criamos raízes para dentro dos outros com nossos vínculos, com nossas posses, com nossas demandas de amor eterno. Criamos raízes para dentro de nós mesmos com nossas comidas, bebidas, cigarros... Na esperança de acabar com essa ânsia que há em nós. Com o desejo mais fundamental humano de estancar nossa ferida narcísica. Come-se para não mais se ter fome. Espera-se que a raiz da comida vingue, mas é em vão. Compram-se casas para não mais ser necessário andarilhar por aí. Espera-se que a raiz da inércia vingue, mas é em vão. Faz-se um vínculo afetuoso com o outro para tentar retomar a unidade celular que foi desfeita com a mãe. Espera-se que a raiz completude vingue, mas é em vão.
Macacos pelados numa repetência eterna buscando voltar a uma antiga posição por toda a vida. A busca desta completude que nunca finda. A promessa dos céus do fim da agonia que nunca se cumpre. Agonia silenciosa, rasteira, latente. Batendo nesta mesma tecla. Repetindo. Tentando. Sempre.
E eu visito o meu vazio... Fazia tempo... Paredes marcadas, com vozes, palavras, escritos, fotos, quadros, desenhos, sinais e vento... Desorganização, bagunça, caos. Um buraco vazio dentro de mim com alguns tons de loucura. Buraco que perdeu a integridade no momento em que foi visitado. Estava quieto, naquela agonia silenciosa, rasteira e latente até ser tocado. Então meu vazio chorou, gritou, berrou como um bebê que precisava de peito, de tato, de cautela. E você me jurou que me daria o que eu precisava. Você mentiu e saiu enquanto eu chorava. Você se mascarou e seguiu enquanto eu me transformava. Eu me vesti com a tua roupa, coloquei a tua máscara, passei o teu perfume, porque não havia lugar mais próximo do mundo para você estar de mim do que aqui dentro. Eu fui você. Menti como você, por saudade, porque tua mentira alimentava minha vaidade... E este é um texto tão narcisista, não é mesmo?! E a mentira virou fantasia. Eu engoli a tua mentira pra dentro de mim e tudo o que eu vivi desde então foi falso, foi falta... Eu repeti a falta da tua verdade até hoje... Eu fui você com quem eu conheci, segui os teus caminhos e me perdi... Corri no teu labirinto e nunca mais saí...
Eu dei o teu sorriso para quem eu encontrei... Entreguei o teu toque para quem eu me deitei... Falei as tuas palavras para quem eu seduzi... Tentei causar no outro aquilo que eu senti... Eis a poesia do veneno que eu consumi... A desgraça das garrafas que eu bebi... A nostalgia das noites nas quais te vi...
Eu fui mentira pra te manter perto de mim... É de mentira que você gosta, eu não me esqueci... É de mentira e é da mentira, teimo repetir... Eu também enganei, foi assim que eu diminuí... Enganado e frustrado achando que eu cresci...
Eu te engoli aqui pra dentro... E aqui ficam meus versos livres de silêncio... Rimados com desgraça e sangue bento... Numa história tão presente quando o tempo... 

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