quarta-feira, 20 de maio de 2015

discurso cabal sobre o que eu já não sou mais

Para ler ao som de Dave Matthews e Jacob Kogan - The Fly


Eu também tive o meu coração partido, sabe? E por um bom tempo estive correndo por aí sem poder usá-lo. Temos dois instrumentos na vida: nossa razão e nosso coração; e cara, eu só podia recorrer à minha razão. Esse foi o problema. A razão tende nos privar das coisas loucas do coração. É por isso que eu deixei tanta devastação atrás de mim... O que eu podia fazer? Meu coração estava aos pedaços...
O mundo estava insuportável, porque sem os mecanismos do coração, não conseguimos criar fantasias nas pessoas, e relacionar-se com a realidade é a coisa mais crua que existe. Eu não aguentava mais olhar para o mundo da maneira como ele realmente é. Eu sentia falta do meu coração funcionando. Então eu precisei levantar e ir atrás de ajuda.
Eu tomei consciência dos meus erros e decidi mudar. E hoje eu tenho a certeza que uma pessoa não é amada porque é boa, mas é boa por ser amada. O amor é um cuidado básico. Isso se chama edificação do ser. Então, antes de julgar alguém, tente ao menos olhar para o passado desta pessoa. Tenha um pouco de empatia com os defeitos mais insuportáveis daqueles que o rodeiam.
Medo de sofrer, não! Hoje vejo que era só meu lado infantil. Medo de não saber lidar com as frustrações. Fui criado para ser um príncipe. Metade de mim era um príncipe, a outra metade era o que eu realmente sou. Metade era o que me disseram que eu tinha que ser, a outra metade era o que eu dava conta de ser. Príncipes são insuportáveis.
Eu dou conta de ser humano. Dou conta de ter poucas pessoas íntimas, mas posso conversar sobre qualquer coisa com qualquer pessoa. Eu tenho partes de favela em mim e tenho partes de berço de ouro. Tenho partes de loucura e partes de extrema lucidez. Às vezes não dou conta nem do meu sofrimento, então eu escrevo. Meu sangue é tinta em papel. Minha vida é história.
Primeiro a gente separa o que é nosso e o que não é. O que é nosso a gente integra no nosso ser. O que não é, a gente joga fora e se enluta por isso, sofre um pouco com o desligamento e depois segue. Uma das coisas mais difíceis da vida é se despedir daquilo que já não é mais, mas é o melhor caminho, e quanto mais prático for, melhor é. Despedir vem do latim Expetere, que significa botar para fora. A gente passa a vida engolindo o outro e botando-o pra fora ao final. E cara, você precisa concordar comigo – vomitar é bem pior do que engolir...
E depois, quando a gente se separa do outro, do que o outro gostaria que fôssemos, do desejo do outro para nossa vida, daquilo que o outro pensa a nosso respeito, o que sobra é a nossa essência. E é neste ponto que temos a oportunidade de tomar consciência das nossas falhas. É neste ponto que notamos que o outro não é e nunca foi obrigado a corresponder com nossas expectativas fantasiosas... Que o outro não precisa e nem vai ser como gostaríamos... A gente é o que é... A vida é o que ela é...
E o desafio humano é enfim, podermos usar nosso coração sem sufocar o outro com nossas fantasias... Aceitar a vida e as pessoas como são e ainda assim, sermos capazes de amá-las, sem o desejo egoísta de que elas sejam o que gostaríamos. Porque no fim, parceiro, a gente quer  o tempo todo que o outro alimente nossa vaidade, quer que o outro faça parte do nosso jogo, quer que o outro goze nossas fantasias...
Sabe que não há nada que irrite mais do que o desejo do outro de sair do jogo? Porque se o outro sai do jogo, tropeça no que eu sou. Eu só sou amado se alguém me ama. Se esse alguém decide não me amar mais, isso tropeça no que eu sou. Eu só sou inteligente porque o outro é burro. Se o outro decide não ser mais burro, isso tropeça no que eu sou...
Isso é tudo, afinal...

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