sexta-feira, 5 de junho de 2015

enredo final do eu só

Para ler ao som de  Duran Duran - Ordinary World 


É isso então...
Está feito e já não se pode mais voltar atrás. Seria a maior infantilidade do mundo, ou a maior fraqueza. O processo mostrou-se real e eficaz, não há como voltar atrás, abrir mão da mudança e fingir que não poderia ser diferente.
Os relacionamentos enterrados estão mortos. A posição de bebê incapaz está morta. Os amigos que já não estão mais presentes estão mortos. O perfume que eu já não uso está morto. A boca que eu já não beijo mais está morta. O caminho que eu decidi abrir mão, está morto. A vida está do outro lado. Nos relacionamentos que eu ainda não tive, nas posições que eu não ocupei, nos amigos que ainda não conheci, no perfume que nunca usei, nas bocas que ainda não beijei, nos caminhos que ainda não trilhei...
Tudo ainda está muito confuso, eu ainda estou muito fechado, eu sei. As muralhas que ergui são impenetráveis, e a verdade é que em algumas noites minha alma se debate ao som da solidão, mas o que eu poderia ter feito? Eu tive medo, tive medo de ser invadido e me perder no meio da multidão. Tive medo do poder que o homem traz nas mãos, entende?! Eu era só uma criança boba com medo de gente. Eu era um bicho do mato e meus olhos nunca esconderam o quão acuado eu estava. Eu dei a cara a tapa, tentei me entregar, mas o que eu consegui foram pés na bunda e frustração. Eu ainda não consegui lidar com tudo isso, mas eu ainda vou voltar. Então aguarde!
Eu cortei minhas asas de anjo e vesti roupas de homem. Estou terminando de amarrar meus sapatos. Eu vou caminhar neste caminho novo, vou encarar o passado de frente, porque tudo o que está lá, por mais que ecoe em mim, não pode mais me destruir. Eu vou neste caminho novo, vou encarar as pessoas de frente, porque tudo o que há nelas, por mais que crie fantasias em mim, não pode me salvar, eu sei...
É isto, então... Está feito... A destruição é óbvia. Não há como voltar e querer viver na zona de guerra. Não dá para brincar de conto de fadas em campo de concentração... Teu perfume era gás venenoso... Teu toque era agressão... Tua sedução era lobotomia... Tua saliva era veneno... A flecha do cupido era tiro de fuzil... O amor era uma boa história que nos contaram para fazer adormecer os monstros tenebrosos que vivem em nós... E agora que eles acordaram? Quem vai pagar as contas? Quem vai dar-lhes de comer? Quem vai domesticá-los? Quem vai limpar nosso corpo das drogas que usamos tentando ser valentes, tentando nos bastar?
E agora que tudo está confuso, onde eu ancoro meu barquinho, homem? Agora que eu não confio em ninguém, a quem eu peço informações nesse lugar desconhecido? E agora que as coisas boas ficaram todas dentro de mim e as ruins foram lançadas para fora, qual presença é mais reconfortante do que a presença de todas essas ausências?
E o que ainda fode tudo, é que memória não respeita pena de morte...
Eu olho para frente, mas esse coração teima em querer ancorar lá atrás... 

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