quinta-feira, 25 de junho de 2015

eco do tempo

Para ler ao som de Antony and the Johnson - Knocking on heaven's door

Ouço um eco do tempo, vozes dos ancestrais que dizem: “Não perca tempo! Aproveite!”. Um eco das palavras dos antigos poetas e filósofos que diziam para aproveitarmos cada minuto, para aproveitarmos o dia. Ouço os tambores dos meus ancestrais na velha África, que saudosos choravam seus familiares levados como escravos. Tambores que choravam de saudades – mães que choravam a saudade dos seus filhos e coisas escritas no céu como “aproveite enquanto você estiver com quem você ama!”.
Ouço um eco que corre pelas ruas na madrugada, um eco de palavras que saem das bocas de pessoas em velórios. Olhos que choram por luto. Pessoas morrem o tempo todo, e a gente nunca se convence totalmente de que isso vai acontecer... O número total de pessoas que nascem, no fim da história, vai ser o número total de pessoas que morreram.
Ouço um eco vindo de um hospital. Meu avô em sua última noite de vida disse para minha avó: “Pra que passar tanto tempo de mal, não é?!”. Ouço ecos que dizem que precisamos beirar a morte para dar valor nas coisas mais importantes da vida que sempre estiveram ao alcance das mãos. A grande desgraça da vida é que sabemos de toda a tragédia que nos aguarda, mas vivemos negando isso. Preferimos nossa arrogância e nossa distância, ao invés de aproveitarmos nosso tempo. Nós preferimos pagar pra ver.
Ouço um eco de vinte e três anos. Um bebê que chora. Um eco de um choro convulsivo de borderlines que se suicidaram por fins de relacionamentos dizendo: “Por favor, não brigue com quem você ama, porque a vida corre demais e brigar é perda de tempo!”. Um eco de um pedreiro fechando um túmulo enquanto velhas histéricas cantam: “Segura na mão de Deus e vai!”. Ecos de pessoas que perderam a vida à toa, que passaram pela vida sem viver, que passaram pelo amor sem sentir, que passaram pela felicidade sem sorrir, que passaram pela chuva sem brincar, que cruzaram a plenitude como fantasmas.
Ouço um eco de judeus, negros e homossexuais que clamaram pelo direito de viver, como qualquer um outro. Ecos de choro e morte dentro de câmaras de gás. Ecos de unhas arranhando as paredes. Ecos de psicopatas sendo eletrocutados em cadeiras elétricas. Ecos de animais se debatendo com tiros no meio da testa enquanto entram em extinção. Ecos de aviões caindo e centenas de pessoas morrendo sem suas últimas palavras.
Ouço o eco destas últimas palavras engasgadas que se tivessem a chance de sair, diriam: “Perdão, sentimos muito. Perdão, queríamos mais tempo. Perdão, não fizemos tudo. Perdão, sempre julgamos ter tempo para consertar tudo!”. Ouço ecos da perda de controle, da angústia de não poder consertar as coisas. A gente sempre acha que a gente vai ter tempo para se desculpar, para reatar, pra recomeçar, mas, parceiro, a vida real não é como nos livros. Talvez não haja tempo para demonstrar, perdoar, se entregar... Talvez não haja tempo para eu terminar esta escrita... Talvez não haja tempo para as coisas do tempo se firmarem.
A última coisa que eu ouvi da boca do meu avô foi: “O Rafael pra mim é como se não fosse nada!”. Ele estava bravo naquele dia. Eu relevei, fingi que não ouvi, sorri e saí de cena. Tanto ele quanto eu julgamos que haveria tempo para a gente se machucar o suficiente e se perdoar depois. O tempo da vida não segue o tempo do coração. A gente aprende isso muito cedo, mas pagamos pra ver.

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