Para ler ao som de Antony and the Johnson - Knocking on heaven's door
Ouço um eco do tempo, vozes dos
ancestrais que dizem: “Não perca tempo! Aproveite!”. Um eco das palavras dos
antigos poetas e filósofos que diziam para aproveitarmos cada minuto, para
aproveitarmos o dia. Ouço os tambores dos meus ancestrais na velha África, que
saudosos choravam seus familiares levados como escravos. Tambores que choravam
de saudades – mães que choravam a saudade dos seus filhos e coisas escritas no
céu como “aproveite enquanto você estiver com quem você ama!”.
Ouço um eco que corre pelas ruas na
madrugada, um eco de palavras que saem das bocas de pessoas em velórios. Olhos
que choram por luto. Pessoas morrem o tempo todo, e a gente nunca se convence
totalmente de que isso vai acontecer... O número total de pessoas que nascem,
no fim da história, vai ser o número total de pessoas que morreram.
Ouço um eco vindo de um hospital.
Meu avô em sua última noite de vida disse para minha avó: “Pra que passar tanto
tempo de mal, não é?!”. Ouço ecos que dizem que precisamos beirar a morte para
dar valor nas coisas mais importantes da vida que sempre estiveram ao alcance
das mãos. A grande desgraça da vida é que sabemos de toda a tragédia que nos
aguarda, mas vivemos negando isso. Preferimos nossa arrogância e nossa
distância, ao invés de aproveitarmos nosso tempo. Nós preferimos pagar pra ver.
Ouço um eco de vinte e três anos.
Um bebê que chora. Um eco de um choro convulsivo de borderlines que se
suicidaram por fins de relacionamentos dizendo: “Por favor, não brigue com quem
você ama, porque a vida corre demais e brigar é perda de tempo!”. Um eco de um
pedreiro fechando um túmulo enquanto velhas histéricas cantam: “Segura na mão
de Deus e vai!”. Ecos de pessoas que perderam a vida à toa, que passaram pela
vida sem viver, que passaram pelo amor sem sentir, que passaram pela felicidade
sem sorrir, que passaram pela chuva sem brincar, que cruzaram a plenitude como
fantasmas.
Ouço um eco de judeus, negros e
homossexuais que clamaram pelo direito de viver, como qualquer um outro. Ecos
de choro e morte dentro de câmaras de gás. Ecos de unhas arranhando as paredes.
Ecos de psicopatas sendo eletrocutados em cadeiras elétricas. Ecos de animais
se debatendo com tiros no meio da testa enquanto entram em extinção. Ecos de
aviões caindo e centenas de pessoas morrendo sem suas últimas palavras.
Ouço o eco destas últimas palavras
engasgadas que se tivessem a chance de sair, diriam: “Perdão, sentimos muito. Perdão,
queríamos mais tempo. Perdão, não fizemos tudo. Perdão, sempre julgamos ter
tempo para consertar tudo!”. Ouço ecos da perda de controle, da angústia de não
poder consertar as coisas. A gente sempre acha que a gente vai ter tempo para
se desculpar, para reatar, pra recomeçar, mas, parceiro, a vida real não é como
nos livros. Talvez não haja tempo para demonstrar, perdoar, se entregar...
Talvez não haja tempo para eu terminar esta escrita... Talvez não haja tempo
para as coisas do tempo se firmarem.
A última coisa que eu ouvi da boca
do meu avô foi: “O Rafael pra mim é como se não fosse nada!”. Ele estava bravo
naquele dia. Eu relevei, fingi que não ouvi, sorri e saí de cena. Tanto ele
quanto eu julgamos que haveria tempo para a gente se machucar o suficiente e se
perdoar depois. O tempo da vida não segue o tempo do coração. A gente aprende
isso muito cedo, mas pagamos pra ver.

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