Para ler ao som de Never Think - Robert Pattinson
TRUNCADO: Adj. Incompleto;
cujas partes essenciais foram
retiradas, cortado;
que foi alvo de mutilação ou corte.
Estive trancado em calabouços que
eu mesmo construí para me proteger das coisas da vida. Eu me protegi de ser
preso como meu vizinho foi, mas também me privei da água doce de me apaixonar e
viver um grande amor. Estive com sede e fome de vida, rapaz, aquele corpo
magro, estirado na frente de uma capela era meu! Eu era aquele zumbi com face
de dor, aquele buraco negro vazio tomou meu semblante. Estive em metamorfose,
selvagem, com fome. Estive debruçado sobre peitos vazios de leite, crendo em promessas
de satisfação eterna. Prometeram-me sensações mágicas, mas quando eu suguei,
encontrei um espaço vazio entre aquilo que eu achava que eu fosse e o que eu
realmente era. De lagarta, me encasulei, me enlutei, me doí...
Estive trancado neste casulo por
cinco anos. Cinco anos, rapaz. Cinco anos dizendo que eu não precisava de
ninguém, embora estivesse aguardando o seu retorno. Eu botei tanto poder no teu
nome, que acreditei verdadeiramente que quando você voltasse, coloriria o meu
mundo de novo. Eu disse que não esperava mais nada de ninguém, mas estive
parado, esperando que você me libertasse. Estive trancado neste casulo, com
medo de sair, com medo da dor. Estive covardeando por aqui...
E agora eu te digo: só falta um
corte... Ser humano é ser truncado, cortado, partido aos pedaços. Um corte que nos separa e nos individua. Estive com medo de fazer esse corte em meu
casulo... Estive com medo de enfrentar o mundo, sabe?! Estive com medo de aceitar que a culpa é toda
minha... A culpa de fantasiar e investir as pessoas de idealizações
infinitas... A culpa foi toda minha de não aceitar as pessoas como elas
realmente são e ainda acusa-las de serem pouco, não sendo capaz de abrir os
olhos e notar que talvez elas nem tenham o que eu quero que elas me deem...
Quem foi que disse que elas tinham o que eu queria delas? De onde foi que eu
tirei esta fantasia infantil?
E ainda há medo de truncar este
casulo. Ainda há medo de minhas asas de borboleta não darem conta de me levar
tão longe quanto eu sonho ir... Ainda há covardia no meu pobre coração de
lagarta... Estive trancado nestes calabouços que eu mesmo construí. E a pior
parte, é que eu estive reclamando. Estive procurando culpados para a minha
desgraça particular. Estive maldizendo os nomes daqueles que me propuseram amor.
Estive julgando-os não-suficientes para minha onipotência. Estive querendo
demais, entende?! Estive ansiando demais por coisas que talvez eu nem precise
hoje em dia... Colo, peito, alimento, contingência... Estive agindo como um
bebê de colo... Como uma lagarta, quando na verdade eu já tenho tudo para me
tornar uma borboleta...
Talvez o grande engano da vida seja
buscar o que não existe... E a grande tragédia da vida é que não existem
culpados... Porque teríamos que voltar e voltar e voltar até o primeiro
movimento de culpa, para justificar as outras atitudes erradas... A vida é um
eco de comportamentos e leituras atravessadas... Percepção trucada de uma vida
truncada de gente truncada com corações truncados... E pra fazer parte desta
vida, eu só preciso truncar este casulo. Só isso.

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