sábado, 20 de junho de 2015

selvagem truncado

Para ler ao som de Never Think - Robert Pattinson

TRUNCADO: Adj. Incompleto;
cujas partes essenciais foram retiradas, cortado;
que foi alvo de mutilação ou corte.

Estive trancado em calabouços que eu mesmo construí para me proteger das coisas da vida. Eu me protegi de ser preso como meu vizinho foi, mas também me privei da água doce de me apaixonar e viver um grande amor. Estive com sede e fome de vida, rapaz, aquele corpo magro, estirado na frente de uma capela era meu! Eu era aquele zumbi com face de dor, aquele buraco negro vazio tomou meu semblante. Estive em metamorfose, selvagem, com fome. Estive debruçado sobre peitos vazios de leite, crendo em promessas de satisfação eterna. Prometeram-me sensações mágicas, mas quando eu suguei, encontrei um espaço vazio entre aquilo que eu achava que eu fosse e o que eu realmente era. De lagarta, me encasulei, me enlutei, me doí...
Estive trancado neste casulo por cinco anos. Cinco anos, rapaz. Cinco anos dizendo que eu não precisava de ninguém, embora estivesse aguardando o seu retorno. Eu botei tanto poder no teu nome, que acreditei verdadeiramente que quando você voltasse, coloriria o meu mundo de novo. Eu disse que não esperava mais nada de ninguém, mas estive parado, esperando que você me libertasse. Estive trancado neste casulo, com medo de sair, com medo da dor. Estive covardeando por aqui...
E agora eu te digo: só falta um corte... Ser humano é ser truncado, cortado, partido aos pedaços. Um corte que nos separa e nos individua. Estive com medo de fazer esse corte em meu casulo... Estive com medo de enfrentar o mundo, sabe?!  Estive com medo de aceitar que a culpa é toda minha... A culpa de fantasiar e investir as pessoas de idealizações infinitas... A culpa foi toda minha de não aceitar as pessoas como elas realmente são e ainda acusa-las de serem pouco, não sendo capaz de abrir os olhos e notar que talvez elas nem tenham o que eu quero que elas me deem... Quem foi que disse que elas tinham o que eu queria delas? De onde foi que eu tirei esta fantasia infantil?
E ainda há medo de truncar este casulo. Ainda há medo de minhas asas de borboleta não darem conta de me levar tão longe quanto eu sonho ir... Ainda há covardia no meu pobre coração de lagarta... Estive trancado nestes calabouços que eu mesmo construí. E a pior parte, é que eu estive reclamando. Estive procurando culpados para a minha desgraça particular. Estive maldizendo os nomes daqueles que me propuseram amor. Estive julgando-os não-suficientes para minha onipotência. Estive querendo demais, entende?! Estive ansiando demais por coisas que talvez eu nem precise hoje em dia... Colo, peito, alimento, contingência... Estive agindo como um bebê de colo... Como uma lagarta, quando na verdade eu já tenho tudo para me tornar uma borboleta...
Talvez o grande engano da vida seja buscar o que não existe... E a grande tragédia da vida é que não existem culpados... Porque teríamos que voltar e voltar e voltar até o primeiro movimento de culpa, para justificar as outras atitudes erradas... A vida é um eco de comportamentos e leituras atravessadas... Percepção trucada de uma vida truncada de gente truncada com corações truncados... E pra fazer parte desta vida, eu só preciso truncar este casulo. Só isso. 

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