Para ler ao som de Gustavo Santaolalla - Pajaros
Quando eu era
pequeno, me contaram uma história de um homem e me diziam para nunca ficar como
ele. Na época eu não entendi o simbolismo da história e muito menos me vi me
transformar exatamente neste homem.
"Naquela época as pessoas ainda tinham poderes mágicos, porque ainda tinham amor verdadeiro em seus corações. Um jovem rapaz caminhava às margens de um rio muito bonito, enquanto pensava em quantas coisas faria em sua vida, afinal era jovem, bonito e tinha muitos talentos. O que o jovem rapaz não esperava é que como uma foice, um dragão chamado Mudança desceria dos céus e o partiria ao meio.
Uma parte do
jovem caiu no chão e a outra, caiu dentro da água. Com os poderes mágicos, o
corpo do jovem rapaz começou seu processo de reparação e regeneração. O jovem
rapaz, aos prantos por se ver naquela situação, entrou em pânico por ver que o
futuro que ele havia planejado não aconteceria mais... Afinal, com uma perna e
um braço apenas, que tipo de criatura ele seria? Que jovem moça se encantaria
por um homem com metade do corpo? Tomado por profunda tristeza, o rapaz se
deitou na encosta do lago e chorou até cair no sono.
Pela manhã o jovem
rapaz acordou com sua outra metade chamando por ele de dentro do rio. Quando
olhou, viu que sua outra metade havia se tornado um homem-peixe. O homem-peixe
disse-lhe que havia feito amigos no fundo do rio, que estava enamorado por uma
bela sereia e que havia sido convidado para ser um guerreiro do rei Tritão. O
rapaz, com muita inveja, começou a chorar outra vez, dizendo à sua antiga
metade que sem ela, ele já não podia mais ser quem ele costumava ser, que já
não podia mais fazer o que ele costumava fazer, que já não alcançaria seus
objetivos como costumava alcançar. Como sua outra metade havia se adaptado tão
bem a sua nova condição?
O jovem rapaz
ficou sentado à margem daquele rio, esperando que o homem-peixe novamente
aparecesse. Ele pensou: “se ele me contar como se adaptou eu sigo minha vida,
se não me contar, eu o mato!”.
Quarenta anos
depois, o Homem-Peixe, agora coroado como Rei Tritão, aparecera na superfície
do rio e vira sua antiga metade, magro, pálido, velho, barbudo, aos farrapos
sentado à beira do rio. Ao se aproximar ele diz:
— Que
coincidência! Decidi dar uma olhada no mundo aqui fora e nos encontramos!
— Não é
coincidência! Eu fiquei aqui te esperando desde aquele dia! – disse o homem.
— Me esperando?
– se espantou o Rei Tritão – E para que me esperavas?
— Quero saber
como fez para se adaptar tão rápido à sua nova condição! Eu não consegui
aceitar que minha vida não seria mais a mesma sem você colado em mim! – disse o
velho homem.
— Você teve
quarenta anos para se adaptar e preferiu ficar parado, com inveja pelo que eu
me tornei?
— Eu não
consigo aceitar que minha vida acabou!
— Ah, velho,
homem! – disse o Rei Tritão – Você se esqueceu de olhar para você mesmo...
Sempre teve um lago à sua frente e ao invés de olhar para seu próprio reflexo e
ver que você se reconstituiu e que sua vida não acabou, você preferiu olhar
para mim e desejar que eu não tivesse conseguido me adaptar...
— Eu só me
reconhecia como alguém capaz quando você era minha outra metade... – disse o
velho homem – Não deixo de te amar nem por um segundo desde que nos
separamos...
— Pobre de
ti... Teu amor não é a mim! Teu amor é a ti mesmo que sente-se incapaz por
sentir que perdeu algo. Somos dois, não mais um. O que tens é dependência e não
amor... Parta-te ao meio novamente e novamente e novamente, até que sejas capaz
de entender que tu continuarás a viver, que tu serás tu mesmo... E que as
outras partes tuas que forem por aí, não vão levar teus sonhos, tua força, teus
propósitos... Os outros são os outros e só!"

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