sexta-feira, 24 de julho de 2015

"ser mais flexível" pode rimar com "ser mais feliz"

Para ler ao som de Keane - Everybody's Changing

Cara, a dor da mudança é que temos que deixar certos hábitos de lado. Temos que mudar. O desejo absoluto de retorno a uma posição completamente agradável (posição de bebê, amado e nutrido) é ferido todas as vezes que uma mudança significativa ocorre. Mas a mudança por si só traz a maravilhosa possibilidade. Possibilidades... De ser melhor, se ser mais amável, de ser mais autêntico... De ser a mudança que queremos ver no mundo...
A teoria é bonita, mas a prática é dolorosa. Mudar implica em abandonar muitas coisas com as quais aprendemos a gozar, abandonar pessoas com as quais gozamos, abandonar posições com as quais gozamos, abandonar comportamentos com os quais gozamos, abandonar lugares e ideias com os quais gozamos...  
Minha visão pessimista da vida só mudou, quando eu notei que viver não é apenas perder. Eu olhava para trás e desesperado eu dizia: "Vocês não estão vendo? Estamos perdendo muitas coisas com o passar do tempo... Perdemos pessoas que amamos, perdemos posições de onipotência que ocupávamos, perdemos antigos amigos, perdemos antigas formas de viver a vida, perdemos nosso corpo infantil, nossos pais infantis... Viver é perder!". Mas hoje eu vejo que viver também é ganhar, é colecionar experiências, agregar novas formas de gozar a vida, acumular histórias e pessoas boas... É um processo cíclico. Ora perdemos, ora ganhamos... Ora abrimos mão, ora conquistamos... Ora não vemos mais esperanças, ora tudo se expande e a vida ganha novos sentidos... São coisas da vida... E vida, meu caro, é movimento. 
Uma vez ou outra a gente volta a ocupar uma antiga posição, mas sempre temos que olhar e seguir para frente. Tem momentos que não sabemos o que fazer e regredimos até aquele tempo em que éramos pequenas criaturas que não tínhamos poder para nada e a única coisa que podíamos fazer era chorar. E nós choramos. Tem momentos que não vemos saídas e procuramos o outro pedindo ajuda, como naquele tempo em que estávamos descobrindo o mundo e precisávamos de alguém por perto dizendo o que podia ou não ser feito. E nós recorremos. Tem momentos que nos pegamos pelados com alguém dentro de um carro com os vidros embaçados como naquele tempo de juventude e inconsequência. E nós abrimos mão de pensar e apenas vivemos. 
E a gente precisa dessas coisas. Precisamos de momentos de loucura, de infantilidade, de choro, de briga, de ódio e amor, de medo, de recorrer ao outro, de se apegar a alguma coisa. Precisamos desses momentos porque a vida não tem manual. Às vezes precisamos recorrer a antigos meios de lidar com a vida, porque temos um caminho acidentado para trilhar. Um terreno cheio de adversidades do começo ao fim, e precisamos encontrar uma forma de chegar ao fim sozinhos. 
São posições, isso indica que são momentâneas. Em tal situação, o que surte mais efeito é agir de tal forma. Em outra situação, tal comportamento não vai surtir tanto efeito assim. Isso é se adequar à vida. Ser flexível. Quem é duro demais acaba quebrando uma hora. 

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