sexta-feira, 31 de julho de 2015

sobre meninos e cavalos

Para ler ao som de Jet - Look What You've Done

Quando eu era pequeno a coisa que eu mais queria era ter um cavalo. Eu vivia pedindo para o meu tio do sítio me dar um dos cavalos dele. Eu já sabia até qual cavalo eu queria. O nome dele era Garoto. Meu plano era o seguinte: ele me daria o cavalo, eu colocaria o cavalo no quintal de casa e buscaria grama para ele todos os dias. A gente tem dessas coisas de posse desde muito cedo. É que quando somos crianças nos julgamos onipotentes. Eu daria conta de ter um cavalo, de cuidar dele, de alimentá-lo... E em minha fantasia, ele seria o cavalo mais feliz do mundo. É que nunca me ocorreu que ele talvez gostasse de ficar no pasto, de ficar com os outros cavalos, de ter espaço para correr, de permanecer no lugar onde ele estava habituado...
Isso se chama desejo. Desejo ter um cavalo, pego um cavalo pra mim e pronto! Desejo realizado. Isso começa a mudar quando a gente amadurece – pelo menos deveria mudar. Quando a onipotência morre, começam a nascer sentimentos mais maduros e nobres, como o amor.
Existe uma frase feita rodando por aí que diz que quem ama deixa o outro livre. Só agora, aos meus vinte e três anos eu começo a notar a profundidade desta frase. Se eu digo que amo tanto alguém, por que cargas d’água eu não deixo que esse alguém viva sem que eu ocupe uma posição de indispensabilidade para ele?
Se eu amo alguém, eu preciso deixar que essa pessoa vá e venha, preciso deixar que ela respire, que ela viva.  Mas isto é uma coisa que só aprendemos com a experiência – e muitas vezes passamos a vida sem aprender.
Se eu amo alguém, eu não tenho o direito de prender este alguém – relacionamento sério não é prisão! – não tenho o direito de sufocá-lo, porque nada sobrevive na Terra sem oxigênio. Se eu amo alguém, então quero que este alguém esteja vivo. É um convívio e não um apoderar-se do outro. O amor é mais aquela coisa de: “Vou te ajudar a crescer e dar bons frutos.”.
Se eu gosto tanto de cavalos, preciso aprender a aceitar que o melhor lugar para eles viverem não é no quintal da minha casa. Amar está para admirar, assim como depender está para aprisionar.
Se eu amo tanto alguém e este alguém, por questões financeiras, por exemplo, precisa ir embora, que bosta de amante sou eu ao preferir ver a pessoa endividada perto de mim a vê-la mais tranquila longe?
Se eu amo tanto minha terapeuta, que bosta de amante sou eu se não aceito que às vezes ela precisa tirar férias e relaxar a cabeça? Deixe livre!
Se eu amo tanto minha família, que bosta de amante sou eu se não permito que eles façam papel de família – ser família não é ser invasivo! – ? Deixe livre!
Se eu amo tanto meu namorado, que bosta de amante sou eu que não sou capaz de entender que ele não precisa fazer tudo que eu quero para demonstrar que me quer? Deixe livre! Deixe ele ser o que ele dá conta de ser!
Se eu digo que amo tanto alguém, que bosta de amante sou eu se não consigo aceitar que a pessoa é o que ela é e ponto? Deixe livre! Dê liberdade para que a pessoa seja o que ela é!
São pensamentos avulsos que eu tenho às vezes... Pensamentos acerca desse sentimento que está na boca de tantos, mas no coração de poucos. Às vezes vejo pessoas em relacionamentos se machucando tanto e professando que é amor, e eu penso: “uma criança não sabe, definitivamente, cuidar de um cavalo...”.  

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