Para ler ao som de Jet - Look What You've Done
Quando eu era
pequeno a coisa que eu mais queria era ter um cavalo. Eu vivia pedindo para o
meu tio do sítio me dar um dos cavalos dele. Eu já sabia até qual cavalo eu
queria. O nome dele era Garoto. Meu plano era o seguinte: ele me daria o
cavalo, eu colocaria o cavalo no quintal de casa e buscaria grama para ele
todos os dias. A gente tem dessas coisas de posse desde muito cedo. É que
quando somos crianças nos julgamos onipotentes. Eu daria conta de ter um
cavalo, de cuidar dele, de alimentá-lo... E em minha fantasia, ele seria o
cavalo mais feliz do mundo. É que nunca me ocorreu que ele talvez gostasse de
ficar no pasto, de ficar com os outros cavalos, de ter espaço para correr, de
permanecer no lugar onde ele estava habituado...
Isso se chama
desejo. Desejo ter um cavalo, pego um cavalo pra mim e pronto! Desejo
realizado. Isso começa a mudar quando a gente amadurece – pelo menos deveria
mudar. Quando a onipotência morre, começam a nascer sentimentos mais maduros e
nobres, como o amor.
Existe uma
frase feita rodando por aí que diz que quem ama deixa o outro livre. Só agora,
aos meus vinte e três anos eu começo a notar a profundidade desta frase. Se eu
digo que amo tanto alguém, por que cargas d’água eu não deixo que esse alguém
viva sem que eu ocupe uma posição de indispensabilidade para ele?
Se eu amo
alguém, eu preciso deixar que essa pessoa vá e venha, preciso deixar que ela
respire, que ela viva. Mas isto é uma
coisa que só aprendemos com a experiência – e muitas vezes passamos a vida sem
aprender.
Se eu amo
alguém, eu não tenho o direito de prender este alguém – relacionamento sério
não é prisão! – não tenho o direito de sufocá-lo, porque nada sobrevive na
Terra sem oxigênio. Se eu amo alguém, então quero que este alguém esteja vivo.
É um convívio e não um apoderar-se do outro. O amor é mais aquela coisa de: “Vou
te ajudar a crescer e dar bons frutos.”.
Se eu gosto
tanto de cavalos, preciso aprender a aceitar que o melhor lugar para eles
viverem não é no quintal da minha casa. Amar está para admirar, assim como
depender está para aprisionar.
Se eu amo tanto
alguém e este alguém, por questões financeiras, por exemplo, precisa ir embora,
que bosta de amante sou eu ao preferir ver a pessoa endividada perto de mim a
vê-la mais tranquila longe?
Se eu amo tanto
minha terapeuta, que bosta de amante sou eu se não aceito que às vezes ela
precisa tirar férias e relaxar a cabeça? Deixe livre!
Se eu amo tanto
minha família, que bosta de amante sou eu se não permito que eles façam papel
de família – ser família não é ser invasivo! – ? Deixe livre!
Se eu amo tanto
meu namorado, que bosta de amante sou eu que não sou capaz de entender que ele
não precisa fazer tudo que eu quero para demonstrar que me quer? Deixe livre!
Deixe ele ser o que ele dá conta de ser!
Se eu digo que
amo tanto alguém, que bosta de amante sou eu se não consigo aceitar que a pessoa
é o que ela é e ponto? Deixe livre! Dê liberdade para que a pessoa seja o que
ela é!
São pensamentos
avulsos que eu tenho às vezes... Pensamentos acerca desse sentimento que está
na boca de tantos, mas no coração de poucos. Às vezes vejo pessoas em
relacionamentos se machucando tanto e professando que é amor, e eu penso: “uma
criança não sabe, definitivamente, cuidar de um cavalo...”.

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