Para ler ao som de The Scientist - Coldplay
Aos vinte e
três tenho descoberto coisas maravilhosas sobre a profissão que escolhi para a
minha vida desde muito cedo. A gente aprende o quão bonito é aprender a ouvir
verdadeiramente o que alguém nos fala, aprende o maravilhoso significado da empatia,
aprende a observar sem inferir, aprende a aconselhar, a ajudar o outro a se
organizar, a se conter. A vida do outro pesa em nós com aquilo que chamamos de
responsabilidade profissional. O psicólogo frequentemente é a última opção no
caleidoscópio de saídas de uma pessoa. Não levamos a mal... Sabemos que a saúde
mental vem de um contexto bastante marginalizador, e ainda segue assim, em
muitos lugares.
Agora, aos
vinte e três, eu descobri que nós, psicólogos, somos astrônomos da alma. É um
bom título para livro! Vou me explicar: quando contemplamos o céu, podemos ver
muitas estrelas que já nem estão mais lá. A luz das estrelas mais distantes
demoram muitos anos luz para chegar até a Terra. A dinâmica da terapia é
bastante parecida. Muitas vezes encontramos pessoas sofrendo por questões que
ecoam uma situação que já nem existe mais. É coisa humana: tendemos a repetir
situações e comportamentos que não foram bem solucionados. Entramos em ciclos
viciosos constantemente. Tendemos a continuar a usar mecanismos que para uma
certa situação surtiram efeito, mas que para o presente momento são desajustados.
O psicólogo é o
cara que mapeia a história do indivíduo, que pesquisa sua demanda, que busca
soluções para o desajuste. O psicólogo é o cara que trabalha com a angústia e
com a dor. É um trabalho pesado, mas muito importante, e embora o paciente
esteja ocupando uma posição extremamente impotente, desgastante, triste,
doente, ainda assim, não é nosso trabalho ter dó do mesmo. A dó incapacita. Precisamos
estar bem resolvidos com nossas próprias questões para podermos chegar à
condição de dizer: “eu sinto muito por esta situação que você está passando! Eu
imagino que deve estar sendo muito difícil para você, mas vamos encontrar uma
saída viável!”.
A gente
trabalha com a palavra – que o paciente diz e que ele não diz também – a gente
trabalha com o som e a dor. Com o sonhador. Com o cara sem sonhos. Com o cara
que faz sem pensar. Com o que pensa e não faz nada. Com o cara que não vê mais
motivos para se levantar da cama pela manhã. Com o cara que não suporta mais
seu trabalho. Com o cara que não suporta mais sua família. Com o cara que
psicotizou e perdeu o pé do chão. Com o cara que broxa mesmo quando encontra
uma pessoa extremamente interessante. Com o cara que quer ter filho, mas seu cônjuge
não quer ou não pode. Com o cara que conseguiu tudo o que queria mas que não
obteve a satisfação que esperava. Com o cara que descobriu que o cônjuge o está
traindo. Com o cara que não sente prazer sexual. Com o cara que perdeu a pessoa
que mais valorizava na vida. Com o cara que perdeu seu filho. Com o cara que
foi preso e não consegue mais arrumar emprego. Com o cara que foi rejeitado
pelo seu grande amor. Com o cara que não consegue se envolver nas questões
sociais e afetivas. Com a mulher que apanha do marido, mas que diz não
conseguir deixá-lo porque o ama muito. Com o cara que não consegue se separar
da mãe. Com o cara que ainda não descobriu que o outro é completamente outro. Com
o cara que não consegue se desligar da morte de alguém e seguir sua própria
vida. Com o cara que nega a dor que sente. Com o cara que desvaloriza todo
mundo com medo de apegar-se e envolver-se. Com o cara controlador. Com o cara
que tem medo das coisas mais bobas que podemos imaginar. Com o cara que trata
mulheres como seres inferiores. Com mulheres que se sentem inferiorizadas – e caras
também!... Trabalhamos com a angústia.
E por mais boba
que pareça a história e a dor do indivíduo, não somos uma vizinha que você
encontra na rua que te diz: “larga de ser bobo!”. Sofrer não é coisa de bobo, é
coisa de ser humano. A vida não é como a gente gostaria e temos de buscar uma
forma de vivê-la o mais próximo daquilo que nos mantenha bem. Contemplar o
brilho das estrelas é extremamente importante, mas viver, é mais importante
ainda. Guiar o paciente para o fundamental da vida. Pensar, divagar, sofrer, é
importante, mas não pode ocupar o centro da nossa vida, não pode nos
incapacitar de viver.
É isso que
tenho observado: por mais boba que pareça a angústia de alguém, ainda assim é
uma história que merece e deve ser respeitada. A dor e a alegria devem ser
vividas. O céu deve ser organizado, para que uma estrela não bata na outra,
para que as tantas tristezas do passado não esbarrem constantemente nas
alegrias do presente.

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