Sinto muito que
as coisas tenham chegado a este ponto. Estamos desacreditados no amor porque
somos peritos em confundir as coisas. Preservamos demais nossas histórias de
dores, traumas e superações enquanto desvalorizamos nossos próprios corpos.
Temos muito medo de nos apaixonarmos, mas entregamos nosso corpo com muita
facilidade. Temos medo das feridas que o amor pode causar porque é muito
difícil lidar com uma cicatriz que não vemos. Sempre será mais fácil lidar com
um machucado no corpo físico, o remédio e a cura são mais simples.
Não temos
remédio para nosso medo de nos envolvermos, e tudo isso por uma confusão bem
simples: seguimos gerações confundindo amor com dependência. Quando a gente ama
alguém e esta pessoa não corresponde ao que esperamos, a gente simplesmente
sofre pela frustração e segue em frente. Quando estabelecemos relações de
dependência, ficamos presos numa grade com o outro, numa dança doentia de amor
e ódio, machucando-se à toa, esperando que este outro satisfaça nossas
demandas. Não é obrigação de ninguém ser o que esperamos.
Eu já estive
nessa jaula, trancado, brincando de amar e machucar, brincando de pega-pega, de
esconde-esconde. “Você nunca vai me conquistar!”, “Você nunca vai encontrar
onde escondi meu amor!”, “Você nunca vai ter a mim por completo!”. Brincadeiras
de criança, relações infantis. “Se quiser algo comigo vai ter que correr atrás
de mim até conseguir me alcançar!”. Demorou muito, mas eu notei que tudo aquilo
que rotulei como amor, era apenas doença.
Dentro das
grades da doença a gente se machuca demais. A gente enxerga coisas que não
existem, antecipa fatos que não sabe nem se vão acontecer, age impulsivamente e
por pirraça finge que não sente culpa pelos danos causados. E a minha verdade
de hoje é essa: a gente só vai poder se libertar de uma história de medos e
fins prematuros, quando nos dermos a oportunidade de reparar os danos que
causamos, danos esses que estamos esperando o tempo todo que sejam vingados.
Achamos que sentiremos na pele toda a desordem que causamos em algum momento. A
única forma de repararmos o passado e conseguirmos viver uma história
diferente, é aceitarmos que ninguém, repito: ninguém é bom nem mau de todo. Só
o amor pode curar... Sair da jaula de doença e ir viver uma vida que valha à
pena.
Deixar de
esperar as coisas do outro. Deixar de depender do outro como se esse outro
tivesse o alimento necessário para a sua sobrevivência. Deixar de esperar
atenção, compreensão, dinheiro, comida, contenção, paz, recompensas, palavras,
atitudes do outro. Dar ao outro a liberdade para que ele seja o melhor que ele
dá conta de ser. Só abandonando a posição de dependência é que é possível
adentrar o campo do amor. Amor é você ter condição de ir e vir e ainda assim
preferir ficar ao lado de alguém. É você não precisar do outro para merda
nenhuma, mas decidir ficar ali porque te faz bem.
A coisa mais
difícil da vida é abrir mão de algo. Abra mão da sua dependência, abra mão de
coisas inúteis do passado, abra mão das suas grades de doença e isso lhe dará
mais espaço e energia para que você possa finalmente recomeçar. Sair da jaula
de doença e ir viver uma vida que valha à pena... E se nada der certo, nosso coração é de elástico mesmo... Ninguém morre dessas coisas... Estica mas não arrebenta. Tudo passa.

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