quinta-feira, 3 de setembro de 2015

rota da liberdade

Para ler ao som de Freedom - Anthony Hamilton e Elayna Boynton

Ah, agora eu tenho tentado ser um bom menino. Eu mudei de caminho, reconheci meus males e mais uma vez eu repito: padecemos por males bobos. Eu era o cara que fazia de todo para transgredir a regra, porque eu não aceitava o “não”. O que me liberta todas as vezes em que tenho minhas recaídas, é a ideia de que eu já sabia que podemos errar algumas vezes quando estamos tentando fazer algo diferente pela primeira vez.

Então o que eu quero é simples: quero estar livre, para mim mesmo. Eu tenho voltado a mim, tenho me resgatado dos calabouços nos quais eu mesmo me tranquei. Eu só quero entrar num carro, pegar a rodovia e sentir o vento batendo contra o meu rosto. Eu com minhas algemas quebradas nos punhos. Estou indo embora de toda essa merda, saindo dessa doença.
Ah, agora eu tenho tentado ser um bom menino. E não é fácil aprender algo que eu deveria ter aprendido enquanto era uma criança. Resistir à frustração de que eu não posso fazer e ter tudo que eu quero. Eu não posso estar onde muitas vezes eu gostaria de estar, não posso ter todas as pessoas que eu gostaria de ter, não posso ter ao alcance da mão tudo que eu gostaria de estar. Estou impossibilitado diante da vida, olhando para mim mesmo no passado, como se olha para um espelho. Muitas coisas daquele antigo-eu ainda ressoam em mim e me fazem querer chorar, e eu tento sufocá-lo, tento matá-lo, tento fazer com que ele se cale, porque sempre que ele fala algo, ele acaba com tudo. Ele só abre a boca para chorar e pedir as coisas. Ele só quer, como um bebê indisciplinado. E eu sei, que de alguma forma o antigo-eu ainda vive em algum lugar dentro de mim. Ele é a parte que deseja, que quer o tempo todo. Sufocar essa minha parte desejante, é como botar uma camisa de força em tudo que aprendi a ser.
A dificuldade está em ver o problema, enxergar exatamente onde ele está, mas saber que isto faz parte de mim, e para acabar com o problema eu preciso me mutilar: castração! Sufocar algo que há em mim mesmo. E o desejo que vem ao meu coração intensamente é a vontade de sair por aí, sem olhar para trás. Fugir. Como podemos fugir de nós mesmos se não perdendo o pé da realidade? Estou me permitindo pela primeira vez fazer diferente: eu permaneci na zona de guerra, não fugi, estou encarando meus vazios e minha angústia de existir, pela primeira vez. Esta foi a minha maneira de tentar tomar uma nova rota. Aceitar a dor emergir do escuro e lidar com ela. A dor de existir sem poder fazer tudo que eu gostaria de fazer. Eu não sou o antigo deus impotente que eu costumava ser. Agora sou um ser humano em sofrimento por dar de cara com suas próprias incapacidades.
É este que quero ver naquela rodovia com os cabelos ao vento: o homem que cresceu, que parou de viver como uma criança medrosa. O homem que aceitou a dor que a vida é, e que de alguma forma entendeu que viver também é ganhar e acumular coisas. Estou arrebentando as algemas, as correntes, as grades. Eu vou ser livre de tudo isso. 

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