Para ler ao som de Freedom - Anthony Hamilton e Elayna Boynton
Ah, agora eu
tenho tentado ser um bom menino. Eu mudei de caminho, reconheci meus males e
mais uma vez eu repito: padecemos por males bobos. Eu era o cara que fazia de
todo para transgredir a regra, porque eu não aceitava o “não”. O que me liberta
todas as vezes em que tenho minhas recaídas, é a ideia de que eu já sabia que
podemos errar algumas vezes quando estamos tentando fazer algo diferente pela
primeira vez.
Então o que eu
quero é simples: quero estar livre, para mim mesmo. Eu tenho voltado a mim,
tenho me resgatado dos calabouços nos quais eu mesmo me tranquei. Eu só quero
entrar num carro, pegar a rodovia e sentir o vento batendo contra o meu rosto.
Eu com minhas algemas quebradas nos punhos. Estou indo embora de toda essa
merda, saindo dessa doença.
Ah, agora eu
tenho tentado ser um bom menino. E não é fácil aprender algo que eu deveria ter
aprendido enquanto era uma criança. Resistir à frustração de que eu não posso
fazer e ter tudo que eu quero. Eu não posso estar onde muitas vezes eu gostaria
de estar, não posso ter todas as pessoas que eu gostaria de ter, não posso ter
ao alcance da mão tudo que eu gostaria de estar. Estou impossibilitado diante
da vida, olhando para mim mesmo no passado, como se olha para um espelho.
Muitas coisas daquele antigo-eu ainda ressoam em mim e me fazem querer chorar,
e eu tento sufocá-lo, tento matá-lo, tento fazer com que ele se cale, porque
sempre que ele fala algo, ele acaba com tudo. Ele só abre a boca para chorar e
pedir as coisas. Ele só quer, como um bebê indisciplinado. E eu sei, que de
alguma forma o antigo-eu ainda vive em algum lugar dentro de mim. Ele é a parte
que deseja, que quer o tempo todo. Sufocar essa minha parte desejante, é como
botar uma camisa de força em tudo que aprendi a ser.
A dificuldade
está em ver o problema, enxergar exatamente onde ele está, mas saber que isto
faz parte de mim, e para acabar com o problema eu preciso me mutilar:
castração! Sufocar algo que há em mim mesmo. E o desejo que vem ao meu coração
intensamente é a vontade de sair por aí, sem olhar para trás. Fugir. Como
podemos fugir de nós mesmos se não perdendo o pé da realidade? Estou me
permitindo pela primeira vez fazer diferente: eu permaneci na zona de guerra,
não fugi, estou encarando meus vazios e minha angústia de existir, pela
primeira vez. Esta foi a minha maneira de tentar tomar uma nova rota. Aceitar a
dor emergir do escuro e lidar com ela. A dor de existir sem poder fazer tudo
que eu gostaria de fazer. Eu não sou o antigo deus impotente que eu costumava
ser. Agora sou um ser humano em sofrimento por dar de cara com suas próprias
incapacidades.
É este que
quero ver naquela rodovia com os cabelos ao vento: o homem que cresceu, que
parou de viver como uma criança medrosa. O homem que aceitou a dor que a vida
é, e que de alguma forma entendeu que viver também é ganhar e acumular coisas.
Estou arrebentando as algemas, as correntes, as grades. Eu vou ser livre de
tudo isso.

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