domingo, 18 de outubro de 2015

embate com o tempo

Para ler ao som de Coldplay - Oceans

Eu vivo num embate constante com Adan, O Senhor do Tempo desde que eu descobri que ele faz o tempo correr quando estamos com quem gostamos. Ele faz o tempo voar nos momentos bons e faz o tempo se arrastar nos momentos ruins. Dizem por aí que não é por mal... Dizem que ele o faz para que não deixemos de aproveitar a brevidade dos bons momentos.
Estive pensando que talvez a única forma de destruir o Senhor do Tempo é amando, porque o amor é atemporal, nos faz ir e voltar do passado e do futuro em questão de milésimos fracionados de segundo.
Foi num dia desses que eu peguei o meu armamento pesado e saí da minha jaula. Parei de pensar e decidi viver. Então eu encontrei um soldado no meio do caminho e perguntei se ele não gostaria de vir para a batalha comigo, mas ele não respondeu, apenas levantou-se e bateu continência. No meio do caminho eu machuquei o pé e perguntei se ele não poderia me fazer um curativo, mas ele não respondeu, apenas começou a correr e sumiu. Logo ele voltou com ervas para o curativo.
— Você não é de falar muito, não é?! – eu disse.
Ele não respondeu.
— Não gostas de falar?
Ele não respondeu também.
— O que há de errado com você? É mudo, por um acaso? – eu questionei.
Ele fez que sim com a cabeça. Era um soldado que não falava, mas que fazia mais do que os soldados que falam. Os soldados que muito falam, pouco fazem, eu pensei.
Seguimos nosso caminho em busca de Adan, O Senhor do Tempo. Em algum ponto da estrada, eu olhei no fundo dos olhos do soldado que caminhava comigo. Ele tinha histórias nos olhos. Histórias de dores, de dificuldades e de alegrias... Seus olhos eram como o mar durante a noite. E eu vi sereias, e centauros, e fadas e seres místicos naquele olho de oceano. A sereia dos olhos dele cantou para mim e eu fiquei seduzido. Os sinos do meu coração tocaram e ele sorriu para mim.
— Gostas do som dos sinos?
Ele respondeu que sim com a cabeça.
— Qualquer dia desses posso lhe entregar esses sinos... Assim que me mostrares que vais cuidar bem deles.
Ele sorriu, deitou sua cabeça no meu peito e dormimos assim.
Adan, O Senhor do Tempo apareceu durante a noite e fez o tempo voar. Ora o soldado estava comigo e ora já não estava mais. E a saudade me consumia e fazíamos de tudo para nos vermos outra vez.
Num dia, eu contei ao soldado o meu plano. Disse que só o amor poderia abrir brechas no tempo. Ele consentiu, mas o tempo passava sempre e o soldado sempre partia.
Nalguma das nossas despedidas eu disse:
— Adan, O Senhor do Tempo nos venceu de novo... Já é hora de você ir... Um dia eu destruo ele... Um dia meu amor vai derrubar o Senhor do Tempo de seu trono... E nesse dia você vai ficar pra sempre... 

Foto por Willian Cesar

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